A IGREJA DE NOSSA SENHORA DO PRANTO

A Igreja de Nossa Senhora do Pranto ergue-se junto da célebre torre pentagonal de Dornes (séc. XII), que outrora fez parte de uma complexa linha de defesa construída pelos Templários contra os muçulmanos, e, desde o séc. XVI, cumpre a função de torre sineira.
Por volta de 1201, no foral de Arega que D. Pedro Afonso (filho de el-rei D. Afonso Henriques) atribuiu à referida vila, aparece entre as testemunhas presentes um Dommus Fiiz prelatus a Dornas, o que permite persumir que, já naquela época, existiria pelo menos uma capelinha nesta vila. Na verdade, a igreja consta de uma Relação, de 1321, que a declara pertencente à Ordem de Cristo e taxada em 220 libras.
Em todo o caso, a partir de 1374, surgem já referências a uma igreja de invocação a Nossa Senhora, a qual, talvez por efeito da sua ruína, foi em 1453 reedificada (total ou parcialmente) e substituída por outra, sob o mandado de D. Frei Gonçalo de Sousa, descendente de um filho de D. Afonso III e comendador-mor de Dormes. Assim o comprova o escudo de armas do clérigo e a inscrição gótica incisa numa lápide que se conserva à direita do portal principal. Consta desta inscrição o seguinte: «Esta Igreja mandou fazer em louvor do Senhor Deos e da preciosa sua Madre Virgem Maria, o honrado cavaleiro Fr. Gonçalo de Sousa, vedor do senhor Infante D. Henrique e do seu concelho e seu alferes maior, comendador desta comenda e alcayde maior de Thomar, filho de Gonçaloannes de Sousa; a qual igreja se fez as suas próprias despezas por sua boa devoção, sem a elo sendo obrigado, e por memória mandou poer aqui estas suas armas. Deos por sua mercê lhe dê galardão de sua bemfeytoria. Amen. Era do Nascimento de N. Senhor Jesu Christo de 1453».
Da primitiva construção gótica restam poucos vestígios, nos quais se incluem o brasão de armas e a inscrição referente a D. Frei Gonçalo de Sousa, que se conservam na fachada principal do templo, a par de duas legendas sepulcrais existentes junto à verga do portal lateral sul.

O interior, de uma só nave, encontra-se completamente revestido de azulejos que, segundo Santos Simões, datam da primeira metade do século XVII. Os motivos, realizados de acordo com um esquema de estrela e cruz, denotam uma forte inspiração mudéjar combinando, sob um fundo azul, os tons de amarelo e branco.  
Na parede lateral sul, próximo da capela-mor, destaca-se um altar esculpido em pedra calcária, que obedece ao rigor da estética renascentista. O orago é consagrado à Santíssima Trindade (0.970m altura), imagem quinhentista esculpida em pedra, representando o típico Deus Pai em majestade, segurando Jesus Crucificado, mas já sem a correspondente Pomba do Espírito Santo.
Caminhando em direcção à entrada principal do templo seguem-se uma pequenina imagem de roca alusiva a Nossa Senhora da Conceição, assente sobre uma mísula justaposta à mesma parede e uma pintura executada a óleo sobre tábua representativa de um Descanso na Fuga para o Egipto, precioso exemplar maneirista do último terço do século XVI, com 2.090m de altura e 0.725m de largura.
Por sua vez, na lateral norte e em frente do altar consagrado à Santíssima Trindade localiza-se um outro retábulo renascentista, igualmente esculpido em pedra calcária, constituído por quatro nichos que ostentam as figuras dos evangelistas: São João, São Marcos, São Lucas e São Mateus, todos esculpidos em pedra e datados do século XVI, com aproximadamente 0.800m de altura. O nicho central, dedicado ao Santíssimo Sacramento, é revestido por um painel azulejar emblemático que data provavelmente da mesma época em que foi realizado todo o revestimento azulejar do corpo da igreja, isto é, inícios do século XVII. Neste painel encontra-se representado o tema da Eucarístia na forma de exposição da partícula divina: a hóstia pintada de amarelo (como forma de sugerir ouro) que se destaca de um fundo radiado. A composição é acompanhada da inscrição HOC EST ENIM CORPUS MEUM, patente no friso do altar.
Já na parede lateral sul seguem-se uma imagem do Sagrado Coração de Jesus assente sobre uma pequenina mísula; um púlpito, datado de 1544 e lavrado de rosetas com a cruz de Cristo; um órgão de tubos (da 2ª metade do século XVIII, restaurado em 2001) a que se acede por meio de um lanço de escadas de madeira que desce a partir do coro-alto; e, por fim, um baptistério revestido por um silhar de azulejos de recente produção que reproduz os exemplares existentes na capela-mor. O forro azulejar deste último espaço trata-se de um revestimento do tipo caixilho em esquema simples, produzido nos tons de azul e branco, e resulta de uma encomenda que Frei Baltazar de Medeiros terá mandado executar em 1592.
interior da capela-mor é ainda enriquecido por um magnífico retábulo em talha dourada barroca, no qual se conserva a imagem milagrosa de Nossa Senhora do Pranto (0.900m altura) datada do século XVI e representada na forma iconográfica habitual da Pietá.
Por sua vez, os caixotões da abóbada são preenchidos por várias pinturas alusivas à temática da Paixão e diversas imagens de Santos que se fazem acompanhar dos seus respectivos atributos. São estas pinturas próximas da que se encontra ao centro da cobertura da nave do templo, onde se encontra representado o escudo da Rainha Santa Isabel, curiosamente invertido.
Da restante imaginária presente na igreja de Nossa Senhora do Pranto destacam-se ainda duas imagens quinhentistas esculpidas em pedra alusivas a Santa Catarina(0.980m altura), cuja indumentária e caracterização são notáveis, e a uma Nossa Senhora do Leite (0.745m altura), esta muito mais rude e bastante repintada. Ambas estão assentes sobre mísulas justapostas ao arco cruzeiro e localizadas, respectivamente, no lado do Evangelho e no lado da Epístola do mesmo arco.
Já no corredor da sacristia, sobre um arcaz conservam-se uma imagem de roca de Nossa Senhora do Rosário, uma Pietá, uma Nossa Senhora de Fátima, um Cristo Crucificado e um São Francisco de Assis, estes dois últimos executados em madeira policromada. Aqui existe também um pequeno lavatório de cantaria, idêntico aos até agora identificados noutros templos do concelho mas de talhe mais rude, apesar de provavelmente remontar ao século XVI.
Numa outra dependência da sacristia conservam-se, guardados nas respectivas caixas de madeira, os Círios de cada uma das povoações que, anualmente, participam na romaria à igreja de Nossa Senhora do Pranto de Dornes. Refira-se ainda a existência de uma lâmpada de latão seiscentista.
No que se refere ao estado de conservação da Igreja de Nossa Senhora do Pranto refira-se que, a partir de 1963, este templo foi alvo de várias campanhas de conservação e restauro levadas a cabo pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). As intervenções desenvolvidas por esta entidade prolongaram-se até ao ano de 1970, sabendo que entre 1959 e 1964 decorreram as campanhas de reparação da cobertura.








O CULTO A NOSSA SENHORA DO PRANTO

Foi, segundo a lenda, graças a um milagre da Rainha Santa, que teve início o culto a Nossa Senhora do Pranto.
Quando do seu casamento com D. Dinis, D. Isabel teria recebido como dote estas terras de Dornes. Aqui seria seu feitor Guilherme de Pavia, homem tão crente e bondoso que era tido como Santo. Vivia perto da ermida de S. Guilherme, junto à ribeira com esse nome, já perto da vila.
Diz-nos a lenda que o feitor, durante a noite, começou a ouvir um choro e gemidos dolorosos que vinham do outro lado do rio. De dia, por mais que buscasse entre os matos da serra Vermelha, de onde parecia chegar aqule pranto noturno, nada encontrava.
Intrigado, resolveu dar conta à rainha do estranho acontecimento e pôs-se a caminho de Coimbra, para tudo lhe contar. Porém, assim que chegou e antes dele falar, já D. Isabel sabia a razão que ali o levara. Indicou-lhe o lucal exato onde devia procurar e logo lhe disse que iria encontrar uma imagem da Virgem com o Filho morto nos braços.
Guilherme voltou a Dornes e logo partiu para o outro lado do rio (Vila Gaia, freguesia de Sernache do Bonjardim), indo encontrar a imagem, exatamente, no local indicado pela rainha.
Veio depois a Rainha admirar o achado que mandou erguer uma capela. À terra chamou Vila das Dores, a actual Dornes.
Da outra margem do rio (Sernache) o povo contestou e revoltou-se porque reclamavam para si a imagem que tinha sido encontrada na Serra da Vermelha, pertencente àquela localidade e termo da Sertã e não a Dornes.

Por diversas vezes a quiseram levar e outras tantas vezes a imagem de Nossa Senhora do Pranto com seu Filho nos braços desapareceu misteriosamente e voltou a aparecer em Dornes, no seu lugar, no altar da Ermida.
O primeiro registo conhecido que atribui um milagre a Nossa Senhora do Pranto, data de finais do século XVII (1697).
Ao longo do tempo, podemos constatar que o número de Círios em peregrinação à igreja/Santuário de Nossa Senhora do Pranto tem oscilado entre as três e as quatro dezenas.
Entenda-se como Círio a peregrinação religiosa de um grupo de romeiros, formado pelos habitantes de uma povoação, culminando na visita a um templo/Santuário, em pagamento de uma promessa coletiva. De acordo com José Leite de Vasconcelos, a designação de Círios (aplicada a romagens do mesmo tipo em outros santuários da Estremadura) deve-se ao facto de, inicialmente, e ainda no começo do século XX, cada grupo de romeiros transportar o resíduo do Círio Pascal que ardera durante a Semana Santa na igreja paroquial da respetiva povoação.
Em meados do século XX vinham até Dornes, entre vários outros, Círios de concelhos como Miranda do Corvo, Condeixa, Penela, Ansião, Figueiró dos Vinhos, Alvaiázere, Ourém, Tomar ou Sertã. Já aqui se deslocavam no século XIX e continuam a fazê-lo no século XXI.
Em 1712, mostrando um culto dinâmico e bem implantado, era este o retrato feito por Frei Agostinho de Santa Maria: Ha naquella casa alguns quarenta cirios de varias Irmandades de differente terras & alguns delles de cera fina, & o mais tem a dez & a quinze arrobas de pezo cada hum. Cada huma destas terras vem todos os annos em solenne procissão àquella Senhora, aonde lhe fazem festa com missa & sermão, & deixão grandes offertas».
Atualmente, os círios de Dornes concretizam-se entre a Segunda-Feira de Pascoela e o 3º Domingo de Setembro, sendo o ponto mais alto das peregrinações no dia 15 de Agosto, dia de grande festa em Dornes.
O cortejo religioso é organizado do seguinte modo: na manhã do dia estipulado, os romeiros concentram-se na igreja paroquial da sua povoação. Aí, o pároco celebra uma missa e, em seguida, os participantes iniciam, em ritmo lento, a viagem em direcção a Dornes. À frente, junto do pároco, vai o pendão (geralmente com a imagem da Senhora do Pranto e o nome da freguesia bordado) erguido por um dos organizadores do Círio. A cerca de 2 quilómetros de Dornes, ao longo da estrada que se desenvolve do Casal da Mata até ao Santuário de Nossa Senhora do Pranto, inicia-se a Via-Sacra, formada por 14 cruzeiros de pedra, o penúltimo dos quais se ergue à entrada da Vila. Junto de cada uma das estações as pessoas param para rezar, ritual que faz parte do cumprimento da promessa. Chegados à Igreja de Nossa Senhora do Pranto, é realizada uma missa campal no adro do templo, finda a qual os devotos permanecem no interior da igreja rezando e cumprindo votos particulares.
É também, nesta Via-Sacra que, desde 1999, decorre uma iniciativa denominada CIRIUS, em que se narra e encena a história da Paixão e Morte de Jesus, baseada no Evangelho.







ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DO PRANTO DE DORNES

Virgem Santíssima,
Nossa Senhora do Pranto,
Mãe de Deus, Senhora minha:
chorar convosco é rezar!
A vós recorro, Mãe de Misericódia,
prostrado pelo peso
dos meus pecados e sofrimentos:
como no Calvário,
amparai-me em vosso seio!
A vós suplico, gemendo e chorando,
Mãe de Esperança e de Bondade:
convertei-me ao Amor!
Dai-me a pureza de coração
e a fortaleza de alma,
para, como vós,
viver só para glória de Deus.
E quando a morte vier,
eu me sinta adormecer
no calor dos vossos braços. Amen.







ACOLHIMENTO DE PEREGRINOS


Horário da eucaristia dominical
12h00

Visita ao Santuário e compra de recordações
Aberto ao sábado e domingo, entre as 09h00-13h00 e as 15h00-18h00
Em outros dias ou horários, contactar previamente 
Leonor Pedro (926636689)

Marcação de Peregrinações
Contactar párocos, preenchendo o requerimento seguinte

Casa do Peregrino
Disponível para acolhimento de peregrinos, mediante marcação com os párocos